domingo, 15 de março de 2009

Ética amorosa

Ele me olhou com olhos de quem me dava uma última chance. Meu gesto já disse tudo, e sua retenção à porta também; palavras ainda assim foram ditas, mas não em desperdício – em ênfase. Era preciso... Eu sempre enfatizava meu lado feminino na relação ao querer discutir tudo, jogar o branco no preto, usar toda aquela minha criatividade para imaginar resoluções e soluções para reunir ambas as partes, sem parecer um homem. Depois da noitada estávamos alguns passos mais distantes um do outro. As discussões valeram-se para nos estremecer. Mas ali eu queria fazer valer mesmo e realmente expor tudo que eu já expunha com ações para me certificar de que ele já havia entendido tudo mesmo, ou se eu estava mesmo estupefada com sua incongruência.
Como eu pensava, ele resolvera não dormir lá em casa, de acordo com o combinado. Fiquei num cantinho, perto, longe, do lado de fora da porta do meu quarto, já quase no corredor. Preparava novamente a pequena bagagem que ele trouxera mais cedo, com roupas, escova de dentes e pente. Ele não ia parar, ainda que meu rosto estivesse gritando por um pouco de atenção: Não saia agora, não, eu quero falar uma coisa ainda. Tá. Ele parou; esperava... As palavras me fugiam, pois eu nunca tinha sido boa com o falar, muito mais cantando de coração ou escrevendo barulhenta num papel quieto; essas eram as formas mais fáceis de ser precisa em mim... Meus argumentos eram relativamente péssimos no instante. Os debates nos quais eu entrava sempre duravam semanas, meses, anos... Eu falava alguma coisa; me respondiam, eu retrucava ainda que não prontamente. Na tréplica eu me emudecia como quem perdera a batalha; voltava para casa, pensava sobre tudo, via os diversos pontos, examinava o campo, as condições, as possíveis reações, as saídas... No dia seguinte eu voltava disposta e excitada para ganhar a guerra. Era algo tão sublime que me fazia até perder o sono. Era quase como me vingar de uma forma engraçada. É bom ver a cara de surpresos dos meus oponentes quando eu voltava já jogando a roupa suja toda no tanque, quando tudo estava aparentemente resolvido e não havia mais o que ser discutido. No meu ver não havia mal nenhum nisso – era o meu modo de estar certa.

- Gostaria de falar sobre a gente...
- Sobre a gente o quê?
- Sobre nosso amor... Sobre a capacidade de morte do nosso amor.
- Você fala da capacidade dele morrer?
- Não. Falo sobre a capacidade dele nos matar.
Eu não pretendia em nenhum momento assustar, mas já esperava um susto qualquer. Como de costume, ele não esboçara espanto... E o mais espantoso, era que isso ainda me surpreendia. Mas ainda assim eu prossegui, da forma toda que eu pensara no caminho de volta para casa.
Está sendo tudo muito difícil. Somos muito diferentes, mas ainda assim penso que essas diferenças todas somam, que aprendemos muito um com o outro. E que isso é muito bom para crescermos. Você é sempre tão livre, tão jovem... Eu sou mais pacata, mais tranqüila. Mas nem por tanto, isso é motivo para não darmos certo. Somos sempre nós mesmos e isso conta muito, mas ainda há um grande espaço para nos preenchermos. Existem muitas atitudes suas que me desagradam. E você sabe disso, eu já lhe disse. Você é muito egoísta, muito egocêntrico. E hoje você brigou comigo por um capricho seu... Eu estava cansada e estava pedindo por favor para irmos ir embora. Cheguei ao ponto de propor para você ficar com lá com os rapazes e voltar um pouco mais tarde. Eu só queria que você se divertisse, que você ficasse à vontade e que não se chateasse pelo meu cansaço. Sabe, eu não tenho culpa se estou cansada. Tive uma semana cheia, e sei que isso também não é desculpa, pois como você já reclamou isso não seria bem um motivo, pois você também tem seus compromissos. Mas não tenho culpa por não ter o seu fôlego, por não conseguir beber quanto as boyzinhas (odeio o termo!) dos seus amigos. Aliás, não sou nem obrigada a gostar dos seus amigos, como você também não é obrigado a gostar dos meus; mas até agora está indo tudo certo e fico feliz por isso, é um problema a menos que temos. Mas aí quando eu só tentei acertar, você vem com seus pontos de vista só querendo me mostrar que estou errada; vem dizer que eu deveria exigir a sua volta junto comigo, que eu indo você poderia ter ficado com tantas outras mulheres que estavam lá... E você me diz isso como se eu quisesse realmente te deixar lá, como se eu realmente quisesse que você beijasse a primeira garota que passasse muito perto de você, tendo eu mal colocado meus pés pra fora do bar. E se quer saber isso me entristece, pois parece que você não está muito bem decidido assim. Eu sei que o desejo existe, e que isso é normal, mas eu acho que isso é uma questão de confiança. Aí você decide acabar com tudo de vez, e dizer que só confia em si, que pelos outros você não põe a mão no fogo, como se eu fosse tão cruel ao ponto de realmente querer sair dali e te deixar na mão por puro egoísmo, só porque eu estava cansada. E eu te pedi tantas vezes... E você bem que me podia escutar. E ainda fui levar Renata em casa, por um caminho que é longe do nosso. Mas parece que eu sempre estou pelo caminho errado, você é incapaz de reconhecer uma atitude positiva minha, está sempre ressaltando meu lado negativo. Adquirimos uma intimidade grande em pouco mais de um mês, mas nunca houve um gesto seu de transigência. Eu só queria te ver bem, mas aí você deturpa tudo e diz tudo isso... Como poderemos namorar um dia assim? Você destrói qualquer confiança que eu possa ter. E eu digo que ainda não temos nada sério por que eu quero um dia sim ficar com você de vez. E até lá eu construiria confiança e zelo para ficar somente contigo, num relacionamento pra valer. Mas assim vai ser difícil. Mas ainda assim eu quero tentar. Eu gosto de você, gosto da sua companhia, gosto de estar com você, sinto sua falta... E sei que você também sente a minha. Seus amigos mesmo disseram que fazia tempo que eles não te viam tão feliz e satisfeito como estava ao meu lado... Mas não sei o que você espera de mim. Você sempre me deixa mal explicada e quer seguir sempre com sua má-interpretação. Mas tá sendo muito difícil, mesmo. Eu só acho que hoje mesmo não custava nada você ter considerado meu cansaço, e eu ainda quis ceder de deixar você lá sozinho, como você pôde...
- Assim, eu acho que isso é uma questão de ética?
- Ética?
- É... Seria demais você dizer que eu serei seu futuro amor, e... Você vai entender, depois...
Eu fiquei estupefada novamente em como ele respondera tudo o que eu disse com uma simples frase. E Ética? Onde havia ética ali? Existe amor ético? Aliás, amor é ético? Num misto de dor e mistério, eu me perdi num amor que eu não sabia nem se poderia se concretizar. E nele eu corria sério risco de sair ferida novamente.

- Não sei, a gente tá se batendo muito. Pelo nosso bem, talvez fosse melhor a gente dar um tempo. Pra poder pensar, pôr a cabeça no lugar... Algumas semanas...
Meu coração se preparava para se despedaçar pela rodada final, quando ele, com aquele semblante sempre inalterável e indiferente, disse:

- Tudo bem, se você quer assim... Você sabe meu telefone, sabe onde eu moro. É só me procurar. Mais alguma coisa? Posso ir?
Eu não tinha mais nada a fazer a não ser abaixar e balançá-la em sinal negativo. Ele realmente ia embora e me daria o tempo que eu precisasse. Ele novamente não entendera nada do que eu falei; permanecia irredutível na sua visão, no seu egocentrismo exacerbado. As mulheres são sempre mais doces, mas como alguém podia ser assim tão insensível, sem um pingo de consideração? Minha agonia era tanta que eu não podia permitir ele ir embora sem entender tudo o que eu queria dizer. Num ato de desespero, puxei-o pela mão que pendia e o beijei. Ele recebeu meu beijo passivamente, sem temê-lo ou impedi-lo.
Ele saiu, e eu fiquei sem saber se estava tudo bem. Aliás, eu também não entendi muitas outras coisas. Era tudo uma questão de ética... Havia na cabeça dele uma série de regras que deveriam ser seguidas. O mundo tem suas regras, a sociedade, as empresas, as famílias... Pelo visto também divergíamos nas regras; pra ele seria antiético deixá-lo sozinho lá, uma vez que havíamos chegado juntos. Isso seria o bastante para ele agarrar a primeira moça desacompanhada que passasse. Onde havia ética nisso? Porque o desejo dele vale mais que o meu? Porque sua necessidade é mais urgente que a minha? Eu abdicava da minha certeza em prol do seu divertimento e da minha desconfiança. Mas no dia seguinte, quando ele me ligasse, teria certeza que estava tudo bem. Quem era ele para vir me falar de ética? Logo ele, que não é correto em quase nada. Em amar só caberia amor e essa é a primeira não-regra para se poder quebrar todas as regras que impedem a fluidez dos sentimentos. A fatalidade que acometia o nosso amor, ainda que semente, recebia a contribuição para que ele nascesse defeituoso, e nascesse como tantos mortais, destinados às cinzas. E ele, tão racionalmente correto, do tipo de nem ter maturidade para se relacionar com confiança e cumplicidade, via em mim uma criança. Sim, daquelas crianças que têm a pureza no mais íntimo de si, que confiam, que se entregam, que gostava de rir e de se divertir pelo que haveria de mais simples... Era a minha forma de ser, e pra mim é o certo. Mas nem por isso eu me tornava irresponsável. Responsabilidade significa a capacidade de corresponder, ou mesmo recorresponder: a um sentimento, a um auxílio, a uma tafera. Eu me comunicava: mas permanecia sem resposta. – não havia correspondência. Eu seguia os meus sentimentos e deles partiam os meus limites e as minhas liberdades – mas o egoísmo dele que era grande demais para perceber isso. Eu que já estava cansada me cansei ainda mais; estava exausta e confusa.

***

Quando entreabri os olhos já estava claro. Esqueci o abajur aceso. Estiquei o braço até lá para apagá-lo. No meio do caminho tateei um papel que eu não deixara ali, depois dos livros. Era uma pequeno recorte de papel branco, que continha escrito: Seja ética! Olhei para o outro lado da cama, e vi que ele dormia sossegado, virado para a janela. Eu sorria contemplativa... É, acho que estava tudo bem. Mas ainda havia o que ser feito. De qualquer forma ele era um homem só, assim como eu, enquanto mulher, também o era. Éramos um consolo um para o outro; havia entrosamento, o papo era bom, o sexo também... Nos conhecíamos de uma forma legal, apesar de tudo. E eu que esboço tudo no rosto, da alegria à tristeza, posso afimar que ele talvez me conheça melhor do que eu o conheça, já que sou tão transparente. E é assim que ele se aproveita para explorar seu egoísmo em mim, dizendo que me conhece. Pra ele isso não é qualidade, e sim, vulnerabilidade. A ética dele impede que ele pense em algo além... Pobre criança, mal sabe que ainda tem todo o mundo para descobrir. Seu rosto me é familiar, mas isso não quer dizer que o lugar seguro dele é na minha cama, do meu lado. Minha confiança anda a passos lentos e por vezes recua. É como as regras dele fazem com que eu construa as minhas próprias regras. Se continuar assim, não sei se vai dar pra levar adiante. Não estou disposta a conviver com alguém assim, apesar do meu medo da solidão.
Depois de pensar, me levantei calmamente, para não despertá-lo. Fechei a cortina em silêncio. Fui até a cozinha pegar um copo d’água... No caminho de volta, vi papel e caneta sobre a mesinha. Estavam jogados; provavelmente ele escrevera ali o bilhete para mim. Então me predispus a entrar no seu jogo para mostrar o que me interessa. Num recorte pequeno escrevi: Seja responsável! Coloquei o papelzinho no criado mudo ao seu lado, para que visse ao acordar. Voltei, sem nem se quer tocá-lo. E me coloquei na minha posição, como se dormisse. Quando realmente acordássemos estaria tudo bem, sim. Ou seria tarde demais. Mas ele voltara e isso queria dizer alguma coisa. Nossas regras estavam dispostas um ao outro e estávamos dispostas a defendê-las, cada um a sua. Por que depois de tudo ainda acho que estou certa de fato. E só o tempo diria quem o amor mataria – se a mim, se a ele ou se a si próprio. Se ele permanecesse seria mera sorte... Ou uma simples questão de tempo. Tempo o qual estávamos gastando dormindo, segundo regia a nossa alegria e o nosso cansaço.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Fazendo moda

Você trocou de roupa;
Usa sempre o que é próprio
Pra ser belo e bom,
Pra se tornar notório,
Não a mim
Mas a todo o resto.

Assim tão lindo
Posso até sentir vergonha
De você perto de mim.
Além do que,
Não me deixo esquecer
Que talvez agora
Você não esteja muito afim.

Na verdade
Ainda me dói
Toda essa realidade,
Mas já deixei de me importar;
O que não me destrói,
Me faz petrificar.

Estanquei aqui
Vendo que você vai partir;
Um beijo, me dê,
Como se fosse
Um verdadeiro apelo
Ao meu primeiro último.

E foi, você passou
Como se não houvesse nada;
E aí, O que restou
Não foi nenhuma novidade;
Você não é o primeiro
A aderir ao seu bom gosto
A ausência da minha parte
E o meu adeus costumeiro.

Ah, meu bem!
Você que é tão antenado
Nem se deu conta...
Você muito se enganou
Se pensa assim;
Você está desatualizado,
Pois há muito já se tornou
Moda esquecer de mim.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Aparentes semelhanças

As cerâmicas já sentiam os passos se apressarem e ficarem mais pesados. O estresse era circular; percorria, percorria sob si o mesmo espaço, pesadamente. Até que se cansou e saiu disparado pela tangente em uma reta até chegar à cozinha. Já com a xícara na mão, puxou o banquinho com força e se sentou nervosamente, acomodando o traseiro ossudo na parte mais fofa do assento. Esquecera que precisava da água, e também do pó para fazer café. Nestas horas, qualquer acontecimento imprevisto tinha o potencial de elevar o descompasso à quadragésima potência, por mais óbvio que fosse. Ferveu mais ou menos uma vasilha com 4 dedos de água... Enquanto a vasilha girava no interior do eletrodoméstico, ele corria pro lado e pro outro quase na mesma rapidez, sem lembrar onde guardara o filtro do coador. A memória estava péssima... Mas em algum lugar lembrava-se que tinha em algum lugar da cabeça uma vaga lembrança de que não esquecera de comprar filtro de coador de café no supermercado; como da vez passada, que teve que bater na porta de Dona Marlene para pedir um filtro de papel. Dona Marlene é uma vizinha muito solícita, não se nega a nada. Mas da ultima vez que dormiram juntos – não, ela não se nega a nada – ela falou que viajaria a trabalho por uma semana. Provavelmente se tivesse que bater lá, a porta se abriria revelando um velho gordo, com o bucho pendurado sobre o pinto, usando uma samba canção que fedia, munido de um pote de biscoitos sem recheio em uma mão e um controle remoto na outra. Com a cara mais carrancuda, como quem passou muitas noites em claro trabalhando e foi interrompido durante um cochilo, responderia com dois biscoitos ainda sendo mastigados que Marlene viajara e volta não sei quando, e que ele não sabe onde ela guarda o filtro de coador de café descartável. Não, não precisava daquela cena desprezível. (Dona) Marlene não estava, era fato, mas o coador não se tinha certeza. A cabeça às vezes prega uma peça... O coador era muito mais importante que Marlene, mas não procurou entender porque ela (a droga da cabeça) resolvera lembrar de Marlene e de sua casa com cheio de cachorro molhado, enquanto um mísero pacote de filtros descartáveis para coar café, pague 8, leve 9, não era encontrado naquela cozinha minúscula. Ah, achou! A água tombou sobre o pó e o refrescou, sem pena. O café saia fácil, mas ele tinha pressa. Antes de terminar tudo voltou pro banquinho, desta vez com a xícara pela metade. Abriu um vidro fosco trabalhado, da tampa xadrez rosa e amarelo, que herdara de alguma tia já morta, onde lia-se no rótulo açúcar, e com uma paciência descomunal atolava várias colheres cheias de açúcar, como numa criança que se recusava a comer e exigia uma atitude enérgica – ou desesperada – da mãe, ou como quem obriga um grosseirão como o senhor... Seu... É, o corno, marido de Marlene, a ser menos nojento e mais delicado, como o doce ou o próprio pote. Mexeu tudo com força e com pressa... Sabia que só ia passar quando tomasse um café, quando sentisse o morno escorrer pelas paredes do esôfago, acalmando tudo, aparando tudo. Bebeu aquele café doce demais, como quem bebe garapa quente no sol do Saara. Bebeu, bebeu. Fazia constantemente os movimentos de sobe e desce da xícara até não restar nada. Sossegou um minuto, dois, quatro, sete, dez... Novamente sentiu aquela agonia inoportuna que geralmente sentia, que percorria entre os músculos e a pele, sem entrar, nem sair. Sentia muita sede e uma ânsia inexplicável de comer doces; doces, muitos doces, de todos os tipos. Se segurou por um tempo. Depois num surto repentino mandou à merda os avós e bisavós (os oito) que haviam morrido de diabetes ou com hiperglicosagem; numa tijela colocou todos os chocolates que encontrara pela casa. Comera todos em questão de um minuto. Atirou a vasilha no chão, e voltou-se novamente para o vidro cafona de açúcar. A vontade que deu foi de abrir o vidro e despejar tudo na boca, engolir tudo, como quem bebe, num único gole, sem nem mastigar. E o fez... Os grãos eram felizes enquanto caiam como se fosse purpurina reluzindo na pouca luz da cozinha. Grande parte caia pelos cantos da boca e invadiam o piso da cozinha, e entravam por buracos, frestas do pijama. Aquele homem era um açúcar vivo. E como se não bastasse correra aos berros, com a boca cheia, como o insolente vizinho corno, até a portinhola que guarda o liquidificador. Despejara no recipiente: o resto do açúcar do pote (e da boca), biscoitos velhos, mel, um resto de rapadura, geléia de damasco, pastilha de morango, polpa de tamarindo, chantilly, sorvete napolitano, leite condensado, laranja mimo do céu, iogurte de ameixa, granola, ovomaltine, leite em pó e doce de banana que a tia mandara do interior; antes amassou bem tudo com uma colher de pau, e bateu. As lâminas do liquidificador não poderiam resistir a tanta doçura. Mas seria a vida assim tão poderosa com nossa delicadeza? Quando não há quem vença, Deus joga um ou dois copo de água pra dizer quem manda. Ele queria brincar de Deus. A água desceu escorrendo em um redemoinho e tudo virou uma pasta rala de cor marrom claro. Aos prantos, puxou o copo com o equipamento ainda funcionando e tomou, tomou tudo. Tomava, e ao mesmo tempo se banhava. A papa lhe escorria pela camisa do pijama, até se engasgar sufocado com o nariz imerso na solução. Suspendeu e derramou na boca a distância, até começar a errar a mira e acertar os olhos, a testa e os cabelos. Nesta agonia jogou o copo longe, e enterrou as mãos no cabelo que já passara da hora de cortar. A moita tornou-se uma sombra marrom, úmida ao mesmo tempo que fixa. Descendo, levou as mãos ao rosto e trazendo o que restara de sua invenção de sobremesa para o resto do corpo. O mais gozado de tudo, é que toda a agonia nem passou. As pernas esticavam-se involuntariamente, como se se precipitassem numa cãimbra proporcionada pela angústia de viver. Era tudo involuntário: aquela obsessão, os pensamentos, os sentimentos, o desespero... Só era possível sentir, e em algum momento toda a fachada ia ter que cair. Agora sim! Eis alguém doce; um rapaz doce e encantador, com quem poderiam simpatizar. Ninguém sabe de nada! A loucura era necessária pra viver. É normal – para os loucos. E todos acham que sabem tudo. Quero ver ser quem ele é, quando se está assim só. Na verdade, é sempre, mas às vezes a ilusão permite a sensação que dá pra sufocar na multidão – Pelos céus, deveria haver alguém em liberdade que fosse igual a mim! Que me compreendesse minha insanidade sem levá-la de maneira tão analítica e medicinal. O sal da lágrima era só o contraste, o toque; um tempero. Ah, todas as pessoas se parecem umas com as outras; umas em algumas coisas, outras com tantas outras, em tantas outras coisas. No entanto, isso não quer dizer que elas andam juntas ou estão sincronizadas. Um coração jamais baterá como outros, nenhuma cabeça entenderá e verá o mundo como outra. A semelhança também representa diferença... Ou talvez seja o mais diferente de todas as disparidades que há. A igualdade é o princípio a tornar as pessoas tão diferentes, tão desincronizadas, tão demais: alegres demais, tristes demais, decepcionadas demais, insuportáveis demais... Grosseiras, fúteis demais; doces demais. Sofro a mim, mas haja o que houver, mundo ainda é mundo. E se moro nele em algum momento vou ter que permitir-me vivê-lo. Só não me peça pra sofrer menos – não há escolha. É apenas meu jeito de destoar do mundo e de me adequar a ele de vez em quando.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Tempo de amar

"Hoje eu saio
Para comemorar.
Saio sem ensaio,
Da forma que estou,
Sem medo de quem sou
Ou do que vão pensar.

Quero olhar em cada rosto
e dizer com um sorriso
Que não tenho nada pra falar,
Que não quero beijo alheio ou encosto,
Nem competir comigo,
Ou mesmo me desanimar.

Dá-me uma bebida, amigo,
Ou um trago do teu cigarro;
Quero me divertir contigo.
Hoje ninguém impedirá.
Estou feliz, de fato
e quero comemorar.

O motivo
Todos podem ver.
Hoje eu sou só eu,
É em mim que confio.
Se tu vieres, vais perceber
Que algo bom aconteceu.

A vida me presenteou,
Por isso vou celebrar.
Esqueci o que passou;
Agora tenho coragem,
Só resta saber se tens vontade
De repartir desse amar.

Pois é, agora eu amo
A mim e a alguém.
Segura minha mão, amigo,
Comemora comigo!
Só não me seja muito atento;
Ele pode se importar.
Se não vieres, enfim,
Eu compreendo,
Mas vou mesmo assim.
É tempo de amar,
Não preciso de mais ninguém!
Agora existe um bem
Que em casa me espera voltar."

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Febre de Terça-Feira.

Nestes últimos dias ando com o corpo cansado, com a cabeça carregada; o semblante arrebatado de lágrimas exaustas. Tudo desanda; o quarto fora de ordem, cheio de pontas de cigarro, letras de canções, frases de pessoas célebres e poemas inacabados por toda parte. Roupas amontoadas, a cama desfeita há tanto tempo... Passava a maior parte do tempo deitado. Hoje me levantei um pouco melhor. Ainda que com a leve sombra que algo não ia bem. Joguei um pouco de água no rosto, os olhos vermelhos e as pálpebras pesavam, e tudo se tornava pouco a pouco mais claro, dia após dia. Voltei para o quarto sem nada mencionar e me deitei mais uma vez. Minhas costas doíam de tanto tempo sentado e deitado. Estava sedentário, precisava me movimentar, praticar algum exercício. Só assim me sentiria melhor, como também encontraria ocupação para não pensar naquelas coisas que eu tanto pensava. Peguei uma revista nova que estava na cabeceira; li dois parágrafos, mas logo me desinteressei. Resolvi por um disco no aparelho de som. Eram aquelas músicas que eu não cansava de escutar, pois embora me tocassem lá no fundo me traziam qualquer coisa de conforto. Coloquei no repeat e voltei pra casa. Aqueles olhos entreabertos se regeneravam rapidamente. Ontem mesmo choravam como os de uma criança sem a mãe; Hoje carregavam uma superação ainda mal resolvida em seus reflexos, mas sempre fortes e com algo de otimista, sem mágoas. As letras em francês diziam a mesma coisa, mas nenhuma lágrima pendia. Por vezes, o peito apertava e o ar parecia faltar. E não, não era por causa do cigarro. Apesar dos excessos, eu só tinha vinte anos. Eu funcionava a pleno vapor, meus pulmões, meu fígado, meu coração... Por um momento pensei que a velhice tivesse chegado, quando acreditei que não surgiria novo amor. Eu não conseguia amar; na verdade era só eu que é seletivo. Fiquei pensando nos acontecimentos que ainda me assombravam e um poema começava a se esboçar na minha mente. Mas tinha preguiça, não tinha coragem de me levantar e escrever aquelas loucuras silenciosas que na verdade eu gostaria de gritar em sua cara. Li um texto de uma amiga, e ele se parecia muito comigo... A moça na separação abaixara o rosto para evitar os olhos, fizera uma expressão com a boca e disse: tudo bem. Era bem eu, isso. Meus sentimentos se reuniam e ainda havia esperança. Mas naquele momento, eu só queria o silêncio e o escuro do meu quarto. Quem sabe amanhã? Estiquei-me todo e peguei uma caneta e uma folha de ofício que repousavam também na cabeceira. Aos poucos o atrito da caneta com a brancura do papel foi tomando sentido, bem como todos os meus sentimentos:



“Faz tempo que não telefonas
Com saudades de minha paz,
Te convidando a participar
Do meu viver, do meu amar,
Como dias atrás.

Faz tempo que não me procuras,
Que não me aturas, que não me escutas,
Como era habitual para mim na época
Em que para ti minha voz e minha pele eram festa,
Alento. Faz tempo.

Faz tempo que não caminhas
Em direção às nossas lembranças, a mim,
Que tua vida, não mais a expões,
E que ela já não crê, enfim,
No amor, no prazer que uniu nossos corações.

Faz tempo que teu beijo ou teu cheiro
Não vem me visitar,
Faz tempo que tua mão
Não vem se encontrar
Com a minha
Como antes vinha,
Pôr sentimento em minha emoção.

Faz tempo que teus olhos
Não brilham mais como antes
Tornando os meus também brilhantes
Faz tanto tempo, parecia,
Faz só alguns dias...

Faz alguns dias que não és mais quem tu eras,
Mas para mim, me parece tanto tempo...
Encarando o firmamento,
Lamento por teus olhos que não vêem mais
– meu hábito te sujou os olhos.
E se hoje ainda choro,
É por minha culpa:

Meu carinho foi em excesso;
Minha bondade, frágil demais;
E o que julguei estar certo
Não passava de ilusão,
De uma dor.
Se hoje tu não me amas mais,
Não precisa haver perdão,
É assim que eu pago por sentir tanto amor.”

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Pedido à vida

Dentre as todas as coisas que existem no mundo e as que machucam, as que mais nos doem são aquelas que não existem. O vento mais gelado é aquele que sopra de nossa solidão; o fogo que mais nos consome é aquele que arde por dentro, no âmago do coração. O beijo que mais faz falta é o nunca dado; a espera mais dolorida é aquela que nunca virá; o barulho mais ensurdecedor é o silêncio da alma, e a palavra mais dilaceradora é aquela nunca antes proferida, nunca antes pronunciada. O pior perfume é do inodoro; o pior gosto é do insípido. O olhar mais desejado é o daqueles olhos que se teimam em estarem cegos; a mentira mais arrebatadora é a mais sincera; a voz mais agressiva é a que se cala; a lágrima mais sofrida é a dos olhos secos, que não sabem chorar. A pior falta de ar é a dos que se sufocam com o próprio ar que nos alimenta; o toque que mais machuca é o tato recusado; a mão mais ameaçadora é aquela distante, que não se move; a pior dor é a que se não se sente, que se sofre sem doer, sozinho... O amor que mais dói é aquele que nunca se realizará. Somente o ser humano é capaz de dar origem a criações que nunca se concretizarão num mundo onde a realização pode florescer fácil em qualquer solo - pois entre as flores também há o mato, que invade os jardins e os campos. Ilusão se ergue do nada, como também do nada surge o tudo. Quando desmoronar a vista estará clara e minha testa calma. É quando perguntarei: como evitar novamente? Ficarei mudo, sem resposta. Mutilar-se é o único modo de se matar o que não existe - pouco a pouco, bem como o que existe. A ilusão é uma morte que se morre aos poucos, até que a maior delas se desfaça junto ao nossos ossos. É dentre as coisas mais lindas que existem e as mais tristes, as mais belas são justamente aquelas que se sustentam na existência e as mais tristes são as que não existem, que deixaram de existir e que nunca existirão. E o mais triste de tudo não é a desistência de viver ou a renegação da vida. É que viver e existir são sempre tão certos, sempre tão bonitos, sempre tão sinceros. E me dá muita pena não viver e não poder ver o que existe, não existir e não poder ver o que é viver, até deixar de viver e ver o que não pude ser vivido e existido. No entanto, vivo, ainda que triste, pois tenho um mundo para ver - e viver. Vida, deixa-me viver; ainda que eu esteja existindo certo de que algumas das coisas que pra mim são tão mais lindas que todas as outras no mundo não virão a existir jamais e eu não virei a vivê-las mais uma vez.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Uma dose de Tanqueray, por favor.

– Não tem Seager’s não?

– Infelizmente não, Senhora. Não estamos mais trabalhando com Gins nacionais... Temos alguns importados, Tanqueray...

– Tanqueray é bom!

– É sim, é realmente muito bom, Senhor.

– Ah, eu vou pedir uma cerveja... Me vê uma Bohemia.

– Hum... Eu vou querer uma dose de Tanqueray, por favor.

– Ok.

Meu gim chegou rápido. O mais demorado não foi esperá-lo, foi esperar que ela me dissesse alguma coisa. Combináramos pelos nossos perfumes não mencionados que a noite seria densa. Nada fora dito, nem mesmo o nome do perfume. Eu perguntara qual o perfume que você usa? E ela respondeu não se diz o nome de perfume pra ninguém, ninguém precisa ter um cheiro igual ao seu. Olhei de banda; era só mais uma das alfinetadas que eu levara nas últimas vezes que nos encontramos. Mais cedo ela me contara a história de um filme que vira na televisão, e entre filmes e filmes chegou a minha vez de contar uma história, e aí eu fora surpreendido bruscamente por uma interrupção, dita: ah, não precisa contar não, odeio ouvir história de filme. Farta, a idéia era válida pela sinceridade, por que ninguém precisa ouvir o que não quer. Mas acho que eu também não preciso passar pela mesma situação. É constrangedor para uma pessoa como eu que sempre tivera educação na hora de falar com alguém, e mais ainda, que ao procurar um relacionamento sempre tento mostrar o melhor lado meu. Às vezes, ouço o que não quero; muitas vezes por não querer me dar ao trabalho de mudar a estação do rádio, às vezes pois por mais que me incomode eu penso não haver nada melhor para ouvir, ou que há algo no que há de mais podre ou exótico que possa me seduzir por um tipo paixão nunca antes experimentada. Não aquelas paixões devastadoras, nas quais eu morria de amores, escrevendo textos, me debruçando lacrimosamente em travesseiros e canções; uma paixão comedida, rendida a um vício que tornaríamos nós dois partes comuns, que na diferença são semelhantes, e que no meio de tudo haveria um motivo que me convenceria a ceder ao comedimento cômodo. Uma paixão regrada de vida... Porém sempre doce, como outra paixão. Eu, que sempre fora pacífico ao me comportar, estranhei a forma que ela saía se expondo, sem medo que eu não me desinteressasse. Se expunha tanto que muitas vezes me atropelava enquanto eu falava, para falar uma segunda coisa que na cabeça dela era mais urgente. De outras vezes eu falava e falava e no final eu percebia que ela não estava escutando nada – tinha a atenção largada. E nessa falta de atenção morava um tipo de insensibilidade que era voltada para si mesma.

A bebida ainda estava viva no sangue, e o fígado processava com lentidão. Já era o segundo bar da noite. Este estava mais agradável, gente bonita, música boa... Mas o rendez-vous que aparentemente ia bem, estava dependurado num abismo entre nós. A mesa de canto, com nós em cada ponta impunha uma distância ainda maior. Eu já tinha pensado em tudo, mas não cheguei à conclusão nenhuma, de forma que esperamos as bebidas silenciados. O que mais incomodava era o silêncio nosso e o ruído alheio, mas eu já nem estava mais disposto a falar. Tive coisas demasiadamente chatas para poder me reanimar. E eu já esquecia de educação aprendida ou adquirida. Quando meu gim aterrizou na mesa foi o assunto para quebrar o gelo. Eu só tomara gim uma vez antes, e por sinal eu estava com ela. Fora o Seager’s que ela queria beber, mas não tinha naquele bar. Eu inclinei o copo nos lábios e o gosto de Tanqueray tinha o mesmo gosto de Seager’s, que tinha o provável gosto que têm todas as outras marcas de gim. Era um perfuminho fraco, diluído, mas forte; nada mais. De qualquer forma era álcool, e àquela hora, antes de dormir, era só do que eu precisava. Confesso que eu também queria um cigarro. Mas a por enquanto a bebida me bastava, aquele gim igual a tanto outros. É preciso saber se apreciar os líquidos. Mas no fundo, aquelas cervejas, vodcas e whiskys eram todos iguais, ainda que houvesse discussões infrutíferas dos usuários assíduos que marca tal é melhor que outra. No fundo eram apenas formas distintas de se preparar ludíbrios para afastar preocupações e trazer alegrias efêmeras, tão efêmeras como aquelas mulheres vis que se deitam em lençóis tão sujos de tanto serem lavados. Eram líquidos diferentes, mas que eram todos iguais, assim como aquelas mulheres que não passavam de mulheres, as quais eram fáceis de se conseguir sexo. E quando eu a conheci eu não tinha nenhuma outra intenção a não ser levá-la para a cama, o que aconteceu facilmente no primeiro encontro. Depois de tudo ficaram palavras sobreditas, e aí é que não deu pra ficar sem mencionar nada, a comunicação é necessária entre as pessoas. Um diálogo pôde ser estabelecido. Havia, no entanto, erros de interpretação e de emissão de informações, e sempre alguém permanecia carente de uma resposta ou ação. Eu engolia à seco enquanto ela já não parecia ligar ou estava sempre disposta a perdoar, ou era imune. Sua forma de ser insensível impedia que ela tivesse até mesmo o orgulho ferido! Qualquer farpa retribuída era repelida, soava distante; era imunizada, aquela mulher que não se permitia ferir-se, enquanto o mundo se ofende, quer vingança e ironiza. Pra ela só bastava a felicidade, o prazer, a alegria – que digeriria tudo. E não havia bondade alguma nisso, pois ela também não fazia questão de ser amiga. Talvez fosse otimismo misturado a uma auto-bondade extravagante. Mas já eu por pensamentos e por algo que me rege em atitudes, que procurara tanto a sinceridade, encontrei uma pessoa corruptuosamente sincera, e que me flexionara a questionar-me se haveria necessidade ou se eu estava me contradizendo, depois vindo a perguntar se eu tentava dar certo ou estava acomodado com encontros tão freqüentes, quase sempre certos da intensidade. Talvez se houvesse incerteza, não dar muita corda, talvez eu conquistasse um território novo a mais... Ou perdesse todas as fichas. O problema todo é que eu me vi muito criança nisso tudo e talvez ela impertinentemente quisesse me ensinar e eu orgulhosamente quisesse recusar a ajuda. Eu fujo dos joguinhos de amores, de solta e puxa, de larga e pega, e tentava algo sólido e o incrível é que a resposta vinha e nós avançamos, e já não nos limitávamos à cama. Não bem a uma cama, mas ao leito, ao berço; este seria um segundo problema, que revelava que havia algo a ser dito em pleno silêncio. Realmente ali era um lugar seguro, onde quer que nos deitemos, na cama, no banco do carro, na areia da praia, na grama do mundo... Porém, a dificuldade toda é que ela estava tendo dificuldades em ser somente a fêmea da cama... E eu em ser seu macho. Por vezes pareceu quase me utilizar, pois talvez fosse a maneira mais fácil e eficaz de lidar comigo. O prazer é muito mais simples e mais satisfatório. Ela mesmo que o disse. Eu tive que concordar, ainda que nem sempre uma tacada certeira não seja exatamente suficiente. O difícil era o que chamava o prazer, pois os dois tendiam a um estado sobre-humano, sobre-animal, para rever os sentimentos enterrados de outras eras por debaixo dos lençóis e da roupa suja.

Ela quebrara o silêncio dizendo que estava longe demais, que eu deveria sentar mais perto. Mas o garçom vetara minha aproximação por que eu iria atrapalhar a passagem. Não tive culpa, mas ela se ressentiu. Depois uma outra mesa ficou livre, e eu disse poderíamos ficar naquela, dava pra ficar mais junto. Desta vez quem vetara fora ela, e quem se ressentira fora eu. Àquela noite em especial marcamos inconscientemente um com o outro uma troca incessante de farpas e provocações. Um intercâmbio de aparente falta de interesse um no outro, como se ninguém tendesse a se comprometer, aos moldes dos velhos charmes que não rendiam nada, que eu tentava evitar. Já depois, engraçada, insistiu para saber o meu perfume. E para honrar o par, não caberia acatar simplesmente, pois ainda que tosco ainda havia orgulho. Não cedo tão fácil por que não sei ser imune e por ventura posso me sentir idiota por alguns minutos. Seria infantilidade dos dois lados, e quem diria que aquilo mantinha os dois ali sem mover um pé para ir embora pra casa. No fim poderíamos sair os dois perdedores, ou parar agora para vencermos juntos. E no fundo perfumes continuarão a ser sempre perfumes sejam quais nomes eles carreguem e as bebidas permanecerão em suas garrafas, como não deve ser. Sua indelicadeza bruta e mineral tinha certo fundamento no real, e mesmo inconseqüente e desconhecido eu era aluno e ela a professora, como também não era em vão cada palavra que eu deixava a ser absorvida e eu ficava em dúvida sem saber se a falta de atenção era a atenção plena, e eu a magoava profundamente ao alfinetar que ela é dispersa demais e não prestava atenção no que digo. Ela sorria, e dizia não fica com raiva de mim, e me tocava. Eu dizia que não estou com raiva e ela sossega. Talvez eu entenda sua mensagem tão bem mal-interpretada por mim que me perdoe ou permaneça rígida sem nem notar que eu demonstrei uma ponta de sentimentalidade ou de cinismo.

Agora ela se queixara do meu semblante. Disse você tem que estar com sua melhor cara para sair. Me abismou a exigência expressa que eu deveria estar sorrindo para vê-la, mesmo depois de uma semana atribulada. Reagi e ela respondeu que também teve compromissos... O gosto daquilo tudo descia junto com Tanqueray, não maravilhosamente como esperei. Beber perfume não é lá muito agradável, ainda mais com acompanhamento condimentado demais. Mais do que nunca eu queria um cigarro agora; lembrei que ela era ex-fumante, e minha indignação ia a ponto de que seria legal dar uma baforada de fumaça na cara dela e dizer para ela voltar num táxi... Só pra entender o que ela faria – mas sei, faria a cara de incógnita que tem, assustada com a possibilidade de eu não ligá-la daqui a dois ou três dias. Pra não ser sincera sempre, ela me olhava com um olhar desprotegido e se calava, engolindo seco. Não sei que gosto teria aquela saliva, ainda que já tenha experimentado-a. Ela não expressava medo falando, nem perdão. O gosto condiz com o paladar e com a forma de sentir, e eu poderia sentir o dia mais intenso. O que mudava é que eu me perdia pensando nas coisas, aí era quando ela prestava mais atenção em mim. E ela também tinha essa mania de se perder, e não ouvia o que eu falava, ou me atropelava com outros assuntos; me esqueceu. Eu me doava muito mais, e ela permanecia como uma diva inconseqüente que nem perdão pedia. Ela também costumava se perder no vácuo do ar – mas eu entendia. Eu não era compreendido. Até aí era onde eu entendia e ela não. Dissera infantilmente: cresça, querido. E isso me irritou profundamente como tudo: ela tinha mil coisas que me desencantavam incrivelmente; mas ainda assim havia qualquer outra coisa maior que tudo isso e que me interessava e me fazia discutir um relacionamento que nem existe. E ela sabia disso, pois eu fora sincero e lhe disse – Ela rira e dissera ainda bem! No fundo nos dávamos bem; éramos só amigos que se apoiavam, se abasteciam da sensualidade um do outro, negadas pelos demais. Somos as partes perdidas, ímpares, únicas... O choque era muita vida junta, se destruindo de tanta grandeza. Éramos quase que autodestruições que se relacionavam... A diferença é que ela era mais simples. Enquanto eu sonhava em realizações, sonhos e sentimentos ela queria ganhar dinheiro para ter o prazer dos prazeres, queria beber todos os dias e embebedada ouvir música, ficar nua dentro do carro, na rua. Eu representava a complexidade do comportamento, do metódico, que ela insistia em querer transformar. Ela quem disse querer me transformar, coisa que eu nunca entendi, por que elas poderiam já encontrar os caras prontos e apenas tê-los. Ainda mais que de cada palavra herdávamos muito além dos sons emitidos. Sou um rapaz tranqüilo e tenho meus preceitos e de certa forma tudo isso não importava muito a ela. Era sempre certa, sempre madura, caída em plena pista de dança. Era um tanto de egoísmo... Ela é egocêntrica sim - criança. Sempre tentava agradar, fazer as pessoas se sentirem bem, pensando mais no que me rege que na educação... Ela própria quis dizer que eu estava errado. Pela primeira vez acho que ela acertou em algo. Mas eu sou assim e ela era daquele misto de um si que não se envolve. Era a forma que tinha de se defender – desnomear o olfato e o gosto. Tanto fazia inspirar ou ingerir, desde que a noite fosse fria e as luzes quentes, com gente passando e cheirando a desnomes de perfumes e bebidas tão embriagantes quanto a dor dos desiludidos e daqueles que têm noites melancólicas em seus ninhos. Ela era viva e jovem e eu já tinha os anos avançados no tempo que eu levei pensando em quem ela era de verdade. Enquanto eu pensava, ela foi vivendo, vendo pessoas passarem; dois amigos brindaram, um casal de lésbicas se afagou disfarçadamente por debaixo da mesa, um grupo de amigos dançou onde não havia ninguém... Meus olhos foram pesando cada vez mais, e ela foi se incomodando. Eu tive certa culpa, confesso. Não era fácil ser eu. Tive que pedir desculpas por ter feito o que eu tive que fazer, mas eu era sempre eu, assim como ela era sempre ela. Mas ela não se desculpara... Sua imobilidade e sua mudança de assunto era a deixa que ela ignorou e continuou como se nada houvesse acontecido. Ela engolira a seco, agora... O orgulho, o egoísmo, o vício. E eu também quis deixar meu orgulho de lado. Assim foi possível mudar de assunto; rompeu-se naturalmente o silêncio, como começou.

Depois de conversas sinceras resolvemos pedir a conta e ir para casa. Meus olhos pesavam e eu dirigi assim pesadamente até chegar em casa, com aquela vontade grande de me entregar ao sono. Era a primeira saída que saíamos sem ir para a cama depois de beber... Era um avanço; ou um retrocesso. Não sei se vê-la seria mais ou menos interessante do que antes, a partir de agora. Quando estacionei o carro na frente de seu prédio e olhei nos olhos maquiados eu lembrei que era bom beijá-los. Estava silêncio novamente. Amanhã tínhamos uma festa marcada, portanto seria breve o próximo encontro. Depois de depois já era uma outra história. Por amostragem, era certo que os próximos encontros seriam como hoje, se existissem. Estávamos dispostos a continuar nos encontrando, como também estávamos dispostos a continuar a ser quem somos. Não era uma questão de ceder, mas que mesmo na semelhança éramos diferentes. Mas até que ponto isso importava? Que besteira minha de que os pares devem ser iguais, que o amor deve ser ardente e efusivo, como se fosse acabar amanhã, que a correspondência tinha que ser necessariamente gêmea à pergunta para dar certo. De qualquer forma continuaríamos a ter nossas diferenças e nossas igualdades. Era um fato que algum dia não iremos nos encontrar mais; ele chegaria anunciado e saberemos o que aquilo quererá dizer. Mas até lá podemos nos envolver de forma tal que não quereremos dizer adeus, ou podemos nos envolver nesses problemas que se repetirão sem cessar, e nós diremos que foi feito o que teve de ser feito. Tolice, talvez, eu permitir que tudo aconteça sem compromisso, embora com aviso prévio. Ah, ela já está informada... Seria mais covardia estar com alguém por que não se tem ninguém, por comodismo. Mas eu já reparara que era mais: dentre as tantas coisas que me fariam desencantar dela havia algo maior que superava o que havia. Ela era simples, era a vida intensa, a sinceridade, era a música, era a beleza peculiar que se mostra só pra si. Era ela dançando nua no espelho, do outro lado da vida. Não era o sonho, era a vida – como ela é. É a mulher... É uma mulher, que poderia ir além da cama. Era criança, gente que nem eu. Não, ela teria os mesmos problemas, como eu. E só assim seríamos o que nos cabe ser, até o momento que é nosso por direito natural. Daquelas discórdias terei demais... Mas por enquanto aquela noite me bastava. Daqui há quatro ou cinco dias eu sentiria necessidade de telefonar de novo, mesmo que só pra saber se está tudo bem. E sei que ela estaria feliz em ver meu telefone aparecer no identificador de chamadas. Nos encaminhávamos para um namoro, e eu já pedira desculpas antecipadamente pois não sei se seria capaz de me comprometer. Como eu direi, é a experiência pra saber se vale a pena. Valerá algo ou não, mas enquanto vale o que é, na intensidade que lhe coube existir, foi suficiente. Disse que não queria machucá-la; ela perguntara como. Eu não sei dizer... Mas desculpa por ter sentido sono. Amanhã dormirei pela tarde, e estarei bem esperto à noite! Ela sorriu e me desculpou... Ela nunca fala nada quando desculpa, simplesmente se cala, imóvel, ou muda de assunto. Não havia o que perdoar; éramos dois adultos e queríamos ambos estar ali. Que tolice... Fez-se silêncio de novo. Ela me abraçou e disse você deveria passar mais perfume aqui, tocando o centro do meu peito, por cima da camisa. Eu mencionara os locais estratégicos que eu passara perfume, mas ela já não estava escutando. Passaram-se uns dois segundos e eu tinha certeza que ela não lembrava de uma só palavra que eu acabara de dizer. Tinha perca de memória recente, como diriam. Mas mesmo acho que ela só não queria saber das coisas fúteis e sem valor, que não acrescentariam nada. Se não queria lembrar-se, não precisava começar a aprender – por isso que também ela não foi embora. Pra ela não era encantador ou importante saber tocar violão, falar francês ou escrever poemas, como para outras mulheres que vejo por aí. Pra ela só basta saber viver intensamente, na companhia um do outro. E eu me ofendia em vão, pois ali estava uma vida intensa como ela só. A procura tão exaustiva por vezes pode confundir o desejo. Mas se ele parece tão insatisfeito talvez não tenha sido suprido... E daí? Estou aprendendo a perdoar o que não precisa de perdão. Não se perdoa ninguém por ela ser quem é, nem por querer o que quer.

Estávamos no carro, parados; duas crianças aprendendo a crescer, brincando de serem adultas. Por enquanto, é o momento que nos cabe. Por enquanto, aquilo estava bem. Mas até quando? Silêncio; depois de até amanhã, fizera-se silêncio, daquele freqüente a noite inteira. Mas já nos perdoamos por nossa infantilidade e nossa velhice. E deixando-as a parte, os locais onde se passa perfume são tão inúteis quanto os locais de se colocar bebida; tanto faz tomá-los ou cheirá-los. Ao fim e ao cabo são finos modos de mostrar que a água pura pode não matar a sede, uma sede criada por aqueles que morriam secos de tédio ou de desamor, buscando reaver a vida; esqueceram-se de si; eram meros líquidos, como éramos pessoas com meros sentimentos e sensações. Mas vidas... Não haveria outras como aquelas... Já não havia problemas, e o cansaço daqueles segundos era agotador. O ruído calado me irritou de novo, mas ela não notou que as estrelas do céu mudaram um pouquinho de posição. Bebamos a vida, cheiremos a vida. Mais uma dose! E antes que tivéssemos qualquer coisa que não o agora, fiz o que tive de fazer. Passei a mão pela sua nuca para puxar a cabeça e avancei naquela boca silenciosa que me chamava; eram emudecidas, eu e ela, no silêncio final, que nos satisfaria plenamente como a música que estaríamos predestinados a dançar juntos.

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