quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Depois do sono

Acordei me sentindo meio idiota, hoje. Abri os olhos de uma forma estranha, engoli seco e senti uma sensação que eu já conhecia. Tenho facilidade de me sentir idiota. Mas fazia tempo que eu não sentia isso. Tudo anda maravilhosamente bem. Ontem eu bebi até pouco, dormi cedo... Mas acordei assim, meio sem mim, meio faltando um pedaço e com vontade de me encontrar. Estava atrasado pra variar, mas nem corri. Meus pés ainda doíam da noite anterior. Tomei um banho qualquer, um café com um gosto qualquer... Queria que chegasse logo o fim de semana e poder ficar mais a vontade no travesseiro, na cama. Mais sem pressa... Mas sabe, correr às vezes é bom, principalmente agora, mas esse nervosismo não me deixa muito nervoso - pelo contrário, fico no marasmo. Peguei a agenda e fui ver o que eu tinha pra fazer naquele dia: odeio quando não lembro as coisas. Não tem nada a ver com nada, mas eu preciso deixar isso bem claro. Minha memória anda muito fraca e, por vezes, também temo enfraquecer. O dia é repleto de coisas vazias; pegar ônibus, chegar, escrever, cumprimentar, digitar, comunicar (parcialmente), calar, assistir, sair... Quando chegar em casa estarei mais caco do que já estou, talvez faltando mais um pedaço. Sorri ao lembrar - sem precisar da agenda - que você chega amanhã. Fiquei tão feliz, duplamente. Eu estaria mais radiante e eu ainda tinha capacidade de me recordar. É, eu lembro... E ficaria muito triste se eu não o pudesse. O esquecimento de todo seria uma falsa salvação. Me lembrar de você me faz sorrir, me faz sentir uma solidão que me faz bem. Hoje li que para existir a mais perfeita solidão é preciso achar a companhia ideal. E acho que é por isso que ultimamente o mundo me soa tão falso e eu tenho me excluído dele. Ando distante de tudo e todos, mas ando pensando muito. E, quanto mais dentro de mim, vejo retratos seus e decoro o meu quarto com flores, ouço discos de vinil e acendo velas. Lembro datas, oportunidades, compromissos, risos, lágrimas. Lembro de você, principalmente, pois lembro sempre que tenho um coração. O coração é tão rápido e tão constante que na pressa a gente não o sente bater. E confesso que não gosto de perceber os batimentos - dá a impressão que eu vou morrer; na verdade, acho que significa que estou vivendo demais. Lembro, lembro o tempo todo. Você não sai da minha cabeça, como jamais alguém conseguiu entrar nela.
Eu certamente me lembrei, mas a agenda ajudaria. Não, não estava programado para a gente se ver hoje. Só amanhã, quando você fosse chegar de viagem. Acho que é por isso estou assim... Ainda faltava um dia inteiro, que me obrigaria a atravessá-lo sem me queixar. Mas como ia doer... Eu lembrava. E por isso esquecia... Sua lembrança é tão grande, me consome - eu esquecia o resto. O que era o resto? Só lembrava que queria que chegasse amanhã. E eu mal tinha começado a esperar. E o dia mal tinha começado.

2 comentários:

Érica Neves disse...

Gente, nem lembrava como é bom ler as coisas que você escreve. Please, não faça mais greves! hehehe

"Não compreendo como querer o outro possa tornar-se mais forte do que querer a si próprio."
Caio Fernando Abreu.

vitor rocha disse...

cara, tu precisa ler ''cartas a um jovem poeta'' de Rilke, o livro é ótimo e ele vai te mostrar o quão maleável é a tal solidão. é, a solidão dança com o amor, cara a cara, num dueto. é, a solidão nos ensina a nunca sermos sozinhos, contradizendo a si própria. é, ela também nos conforta, se soubermos olhá-la como uma eterna companheira, que pode nos acompanhar embriagada, ou sóbria por excelência.

adorei o texto, volto mais vezes.